A teoria e a prática

Tempos atrás estava conversando com um amigo pelo MSN e o cara estava muito puto da vida. O motivo de tamanha irritação era simples. Ele mora sozinho em São Paulo, trabalha em uma empresa de informática, e vive naquele esquema paulistano de sair muito cedo e voltar muito tarde para casa. Como está economizando bravo para comprar um apartamento, anda preferindo comer em casa que na rua, por ser muito mais barato. Para os dias em que chega muito cansado para cozinhar, ele descobriu uma saída muito prática, “cara, vou comprar um punhado daqueles sanduíches congelados, daí é só colocar no micro-ondas“. O problema, é que o sanduíche mostrado na embalagem era muito diferente do que vinha dentro dela, uma diferença brutal como a foto comparativa acima, e “o gosto também não é muito bom, não. Mas vou ter de comer tudo, já que não dá para devolver e compre uns dez desses sanduíches”.

Algo muito parecido acontece nos concursos públicos. Os concurseiros lêem o edital de um concurso e escolhem um cargo para concorrerem baseados na descrição das atribuições, ou mesmo se baseiam apenas no que acham que os empossados em tal cargo farão. Daí o cara estuda, faz a prova, é aprovado, nomeado, empossado e então decepção, o que ele terá de fazer no dia-a-dia da repartição pública é muito diferente do que ele achava que faria. Daí ele se lembra daquela famosa passagem do poema de Drummond, “e agora, José?”.

Exemplos dessa situação não faltam. Vejamos alguns.

Oficial de Justiça – É grande a expectativa por concursos para esse cargo, que muita gente avalia mais pelas vantagens do que pela rotina de trabalho. Só que uma vez empossado no cargo, o cara poderá tanto fazer apenas trabalhos internos no fórum, quanto ter de entregar intimações para gente perigosa em locais ainda mais perigosos.

Auxiliar de necropsia – A irmã de uma amiga prestou e passou num concurso para esse cargo alguns anos atrás. Ela pensava que faria um trabalho limpo e tranqüilo, como se fosse ser uma enfermeira especializada em lidar com cadáveres limpinhos, arrumadinhos. Ela ficou uma semana no cargo e pediu exoneração. Motivo? Ela não teve estômago para lidar com cadáveres destroçados, em adiantado estado de putrefação, sujos, sangrentos, fétidos.

Auditor Fiscal da Receita Federal – Um dos concursos mais desejados do país. Muita gente acha que a rotina de trabalho de um Auditor Fiscal se resume a dar uma olhadinha em alguns papéis antes de multar empresas que não pagam corretamente os impostos devidos, enquanto aguarda a próxima remuneração polpuda ser depositada em sua conta bancária. Só que a rotina de trabalho desse cargo está anos luz de distância disso. Auditores Fiscais trabalham muito, ficam atolados em meio a montanhas de papel e dados contábeis, enfrentam animosidades e caras feias quando estão fazendo auditoria nas empresas, ralam muito para faz juz ao que recebem.

Policial Federal – Outro cargo que é a “menina dos olhos” de muitos concurseiros, que apenas vêem seu glamour, a imagem hollywoodiana dos agentes da PF vestindo coletes à prova de balas e portando fuzis automático enquanto prendem criminosos famosos. Só que o cotidiano da profissão não é muito diferente do das polícias militares. Os caras têm de enfrentar bandidos, colocar a vida em risco, se embrenhar por lugares violentos e nem um pouco agradáveis.

Para dar um exemplo final e bem atual, que tal o cargo oferecido pelo concurso do Ministério da Fazenda, esse que oferece 2.000 vagas e vem causando furor entre os concurseiros. Sabem o que os aprovados farão? Prioritariamente atendimento ao público nas agências da Receita Federal. Isso mesmo, atendimento. Foi declarado isso por um top-top do mistério em entrevista recente sobre o concurso. Atendimento significa atender os contribuintes, tirar dúvidas, orientar no preenchimento de formulários e tal. Quem pensa que passando nesse concurso vai ficar tranquilinho fazendo trabalho interno atrás de um computador está muito enganado.

Resumo da ópera – Se é preciso ter cuidado com ao escolher um concurso por conta do lugar de exercício do cargo, seja por questões emocionais (deixar para trás família, amigos, namorados e namoradas) ou materiais (pelo custo de montar uma casa nova, uma vida nova), também é preciso ter cuidado na escolha do cargo para o qual se vai concorrer, para evitar que pouco após a posse você, amargamente, descubra que não foi talhado para tal cargo e então peça para sair!

Charles Dias é o Concurseiro Solitário.

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3 Response to "A teoria e a prática"

  1. carla.daud says:

    Olá... isso tb acontece na iniciativa privada. Contratado para fazer algo e acaba fazendo outro.

    GeraH says:

    Bem colocado!
    90% das pessoas que se inscrevem para estes concursos, acham que o serviço será só levar papéis de "A" para "B", ou carimbá-los, e receber os proventos na virada do mês.
    Doce ilusão...
    Aliás, é o que vejo onde trabalho, um grande banco estatal. Muita gente que falava que "não trabalhamos", "somos funcionários públicos", etc., quando tomam posse, em uma semana, mudam logo de idéia...

    Não só esses, mas atentem-se também para o TJ-SP (Escrevente Técnico Judiciário)no final deste ano ou início de 2010. O atual concurso vence em novembro agora, e pelo jeito, como andam nomeando muito, duvido que prorroguem.

    Abraços,
    Jorge Luiz

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