Sem apoio familiar

Sempre nos apoiamos em outras pessoas para ficarmos mais seguros, mais confiantes com relação aos desafios da vida. Isso é perfeitamente normal. Se não fosse assim seríamos robôs insensíveis e vazios. Somos exatamente o oposto. Nos preparamos para fazer o concurso no intuito de gerar mais amor em nossa vida, mais alegria, mais satisfação, coisas que certamente um robô montador de carros não procura depois que a fábrica desliga seus motores.

Buscar a família como suporte para que você alcance seus desejos é uma das primeiras coisas que devemos fazer quando tomamos decisões fortes e impactantes em nossas vidas, como a escolha de um novo trabalho, ou um investimento a médio ou longo prazo como é o caso do concurso. Se a tua família te apóia, ótimo, se não, precisamos então rever algumas coisas que estão no aparato emocional que você carrega consigo.

Decisões difíceis, e eu creio que todas são, mas algumas que nos parecem fáceis são assim por que são triviais ou você já as tomou tantas vezes que já se acostumou e assim elas se tornaram também triviais. Quanto mais trivial, simples for a decisão, mas você as toma sozinho, pois já possui os recursos que em algum momento outra pessoa te ajudou a ter. Por exemplo é a decisão da compra de uma roupa. No início a tua mãe provavelmente ou um responsável te ajuda a tomar a decisão, ou tomam a decisão por você na escolha da melhor escola, mas isso começa a se modificar ao passo que você vai crescendo e vai escolhendo as roupas que quer, ou a escola que deseja estudar, mesmo que de alguma maneira seu responsável participe disso. Mais adiante você vai se dar conta que decidiu trivialmente sozinho a escolha da faculdade que desejava estudar, ou a peça de roupa que quis comprar.

Estou trazendo tudo a um nível muito simplista, mas não é à toa. É para que você se dê conta de que qualquer decisão é decisão, independente de níveis. Decidir é etimologicamente “cortar” e cortando separamos uma opção da outra, como um trem que está preso a outro vagão e impede a locomotiva de ir mais rápido. Quando você corta, sua vida ganha velocidade. A indecisão, o “corta não corta”, te deixa em dúvida e esta te paraliza. Com a tua paralização o tempo não deixa de passar, e com o seu passar a angústia, o medo e a dúvida começam a invadir sua mente, pois se você não está em ação, está com o foco fora do agora. Provavelmente está pensando, “O que será de mim?” (futuro), ou “O que fiz da minha vida até agora” (passado) e isso só traz mais dor e sofrimento.

Somente a ação sistemática, livre de devaneios ao passado ou ao futuro, pode te manter no passo de uma condição mental positiva e forte. O apoio da família é bom, mas eu acredito que não é fundamental, porque se você for levantar um estudo sobre pessoas que tiveram sucesso na vida e compará-las com a qualidade de sua relação familiar, você irá se espantar com quantidade de indivíduos bem sucedidos que vem de famílias muito pobres de espírito e com relações interpessoais decadentes.

Há uma outra coisa em jogo aqui também. Permanecemos ociosos demais em nossa automotivação na esperança de um pai, um tio, a nossa mãe, ou um avô dizerem coisas legais, ou simplesmente pararem de nos colocar para baixo. Essa esperança é a outra face da expectativa do futuro. Você espera que a pessoa mude. Impossível! Ou melhor até é possível, mas como podemos legar ao outro a responsabilidade do domínio, do controle de nossas vidas? Não somos mais pequenas e indefesas crianças, porque se assim fosse não teríamos a infeliz capacidade de magoar o nosso próximo como constantemente ainda fazemos. Fazemos isso por decisão própria. É inquestionável nestas condições que não façamos um esforço para nos libertar de uma ilusória necessidade de termos a família como único meio de encontrarmos apoio e conforto, já que nós podemos encontrar muito mais suporte e entedimento e um indivíduo que esteja passando por semelhante situação, ou seja, um outro concurseiro.

Para fechar, gostaria que você lêsse esse trecho de uma memória do filósofo Jean-Paul Sartre, durante a guerra.

Segunda, 18 de dezembro de 1939, Morsbronn

Os homens, dizemos, não merecem a guerra. É verdade. Verdade no sentido simples de que eles fazem a guerra. Nenhum dos homens atualmente mobilizados (sem exceção de mim, naturalmente) merece a paz, porque se a merecesse realmente não estaria aqui. "Mas pode ter sido obrigado, forçado..." Tá, tá, tá: ele era livre. Compreendo que ele partiu acreditando que não tinha outro remédio. Mas essa crença era decisória. E por que ele decidiu assim? Por inércia, fraqueza, respeito pelo poder, medo de uma condenação... Por isso, na guerra não há vítimas inocentes. Só não merecem a guerra os homens que aceitam o martírio pela paz. Só eles são inocentes, pois a força de sua recusa é o bastante grande para que suportem o infortúnio e a morte. Cúmplice ou mártir, essa é a alternativa. E a decisão faz a História. Recusando-me a fazer guerra, estarei pagando pelos outros. Aceitando-a, pago também, mas somente por mim.”

Sendo assim, decida. Escolha alguém que de fato tenha uma aproximação existencial mais adequeda à sua. Só dá para se conhecer um amigo comendo um saco de sal junto com ele, ou seja, vivendo a mesma situação. Somente desse modo temos a condição de tanto compreender quanto ser compreendido.

Sucesso!

Eric Gerhard

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2 Response to "Sem apoio familiar"

  1. Essas palavras realmente me confortam e agradeço que as tenha escrito. Esses posts dariam um excelente livro! Abraços

    Nix says:

    Olá, estava precisando ler esse texto mesmo, quase chorei com a história do Jean-Paul Sartre, é de uma sinceridade importante que nos faz refletir sobre nossas decisões.

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